Mostrando postagens com marcador Por Rafa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Por Rafa. Mostrar todas as postagens

Quarenta e pouco

Aquela amiga teve um bebê lindo. Outra casou-se e divorciou na velocidade de um roteiro de filme cafona. O mais velho da casa busca correção para cataras em seus olhos. A mais nova, só pensa em Disney.

Os anos estão passando. O meu temor com o tempo fica cada vez mais evidente por estar comprando antidepressivos a mais. A vida passa pelo meio dos meus dedos como se estivesse tentando segurar areia. Aliás, a ampulheta deve ter sido uma tentativa de prender os pequenos grãos e o tempo nas próprias mãos. 

Até seus trinta e poucos anos o julgamento é do “infinito e além”. As pessoas a seu redor não tem pressa. Você não tem pressa! Seu despertador tem motivos muito diferentes dos que se tem quando ultrapassados os quarenta com a sensação de nada feito.

Nas memórias mais longínquas, aquelas infantis, a cena é da janela coberta por uma cortina densa. Ladeada por pilhas de jornais e uma velha máquina de escrever IBM.
Alguns anos depois a cena já é outra: um helicóptero, um país diferente e uma nova língua. Talvez novos amores em meio a novos ares. Diferente das memórias infantis, as realizações profissionais foram a que ficaram impressas e pesam nas observações mais reclusas.
 
Quarenta e pouco! O que houve nesse hiato? O que houve com o sorriso ao lembrar daquela janela com cortina grossa e a máquina IBM? E o espanhol: ¿Ya no hablas? Talvez tudo tenha se perdido em meio a percepções falhadas e partidas agoniadas. Julgamentos errados e a fadiga com as futilidades. Afinal o tempo correu e a vitalidade corroeu. Perdeu-se a hora no que era tão importante. E o despertador tocou tarde demais para o que realmente é relevante. 


  

Passagem

Tem o passado do que não foi. Há também o que só será no futuro. E aquele que não muda. Ah passado…. A memória distorce o que poderia ter sido. Temendo um dia ser ultrapassado e esquecido. Nos passos tímidos a passagem pode ser só o resto. Insistindo em passos incertos e modestos. Passados e repassados na incompetência da culpa. Resistindo as inconsequências da cura. Nada passará redimindo. A espera é esquecer o que foi e, só assim, passar o passado a limpo. 



  

Cada verso representa um nó na garganta;

Notas em Si bemol rasgam lágrimas em Dó menor;

Aos gritos o coração é silenciado junto com a dor.

Credos passados não enganam nem santos.

Preces malditas não estancam o que há de ser.

Paciência não diz mais nada - nada! 

Esperança virou uma palavra sem nenhum poder.

Não posso escutar, falar ou escrever.

Cada verso representa um nó na garganta;

Notas em Si bemol rasgam lágrimas em Dó menor;

Aos gritos o coração é silenciado junto com a dor.

  

Caixa de Pandora


Teu e-mail pode estar "deletando suas mensagens". Fui checar essa informação. Fiquei em dúvida. “Com a chegada de novas mensagens o e-mail poderia esvaziar automaticamente em ordem cronológica”, dizia um site de tecnologia. Sem ter certeza, depois de vários avisos de falta de espaço, deixei de procrastinar e fui resolver.

Ao entra na conta, a seleção do que limpar era prioritário. Comecei por mensagens mais antigas. Levei um susto. Fiquei horas visitando experiências registradas. Então resolvi assumir a melancolia e enfrentar as relíquias afetivas. Avaliar, chorar e espiar o passado. Não abri nenhuma caixa empoeirada ou folheei álbuns fotográficos desbotados. Muito menos tirei do fundo do guarda-roupas aquele diário em caderno universitário. Não precisou. Apenas continuei no meu e-mail e acessei as redes sociais. Encontrei áudios de conversas, mensagens com (e sem) sentido e muito saudosismo ilustrado em retratos.

Escutei as vozes gravadas em mensagens mesmo sabendo que hoje não são passíveis de respostas. (E olhe: ouvir pessoinhas perdidas no tempo, magoadas contigo, distantes, em outras línguas, sotaques e respirações, é um exercício e tanto). Vasculhei a “caixa de entrada” e encontrei trocas com muita dor. Certo de que algumas linhas foram rascunhadas em lágrimas (inclusive revivê-las marejou os meus olhos). Ah! Tinha aquela fotinha de “boa noite” ou um video-selfie de uma viagem a dois…Nossa quanto lenço de papel e coragem.

Encontrei trabalhos exitosos que hoje não fazem o menor sentido; aquisições de bens materiais que jamais teria comprado nesse momento da minha vida; colhi festejos e recompensas de chefes fugazes; achei despedidas amargas e flertes não correspondidos.

Há uma luta de empoderar o discurso do hoje. Várias linhas filosóficas, psicológicas e religiosas defendem o “viver O AGORA!” Contudo, essa cápsula do tempo virtual narrada aqui contradiz o tal preceito. Afinal, o que é o “aqui e agora” se temos ao alcance o “aqui e agora” de anos atras? O sentimento está ali. Ou melhor: hoje. Não sei. Confuso? Como tratar os fracassos e glórias marcadas como “lidas”? Como se livrar de situações/diálogos gravados em vozes detalhando momentos que deveriam ser solvidos? E o “mal resolvido”? Tão natural do humano, fica onde? Numa tela te perseguindo?

Nossas memórias seriam alteradas em outras épocas, num passado muito recente. Com os dias e anos nosso cérebro nos enganaria – pregaria peças. Diluiria as memórias. Não nos daria com exatidão (em mínimos detalhes) os acertos e erros. Temos lembranças alteradas e distorcidas para o nosso próprio bem. Entretanto, percebo que muitas vezes a exatidão do passado online faz enxergar o futuro com mais amargura, saudade e tristeza.

Meu palpite é que a memória virtual provoca seus (meus) arrependimentos, decepções, nostalgia e traumas. Não me venha dizer que não se autoflagela abrindo a caixa de pandora num momento de reflexão. Duvido! O hábito do ser-humano é cortejar o passado. Percorrer lápides e envernizar seus santuários – isso é universal.

Deletar os registros online é fácil. Desconfio que tendo alcance e desapego apagará parcialmente. Aposto que guardará algum trecho ou mensagem, boa ou ruim. Assim, eternizando para te assombrar amanhã ou depois. E se não for assim, uma lembrança inevitável pulará na sua timeline sugerida por algum algoritmo sem coração ou história. Enfim, o passado deixou de estar atrás. Ele está no hoje e estará no amanhã. Tendo disposição ou não para enfrenta-lo.



  

Soneto Mineral


Num dia era amante.
Percebido a inviabilidade,
Quando cassado o direito de sentir,
Virou DIA-mante.

Eterno para lembrar;
Constante para pensar;
Doente em harmonizar;
Posicionado apenas no altar.

Num dia era amante,
Quando cassado o direito,
Eternizou-se num diamante.

Fraquezas a parte,
Rico seria recuperar
a pedra daquele belo anelar.


  

Três

Uma mulher
Duas mulheres
Um casamento

Uma mulher
Duas mulheres
Um amor

Uma mulher
Duas mulheres
Um enfrentamento

Uma mulher
Duas mulheres
Uma flor

Uma mulher
Duas mulheres
Um nascimento

Uma mulher
Duas mulheres
Livres para ter seu rebento. 


  

Rubi

Tentamos salvar de uma oficina abandonada. Reivindicamos a paz, trazendo-a pra casa. A cadelinha viveu acolhida no tempo que devia. Infelizmente, seu futuro estava traçado: um dia partiria.
Rubi, “rubisteca”, fofura... fique com os anjos caninos e nosso eterno carinho. Tenha a tão sonhada paz nessa passagem.
Fiquemos gratos por sua alegria, companheirismo e amor. Quem sabe um dia esperemos que abane o rabo na chegada, num outro lugar, numa nova morada. 

#rip_rubi
  

Rabetão

"Don Octavio Flores" resgata sedutor mascarado. Uma tentativa de suicídio? Ou apenas um alarde para chamar a atenção? Depende do ponto de vista. Depende da compreensão e paixão de quem está assistindo o filme Don Juan de Marco (1994). Nada de análises éticas ou psicológicas. Tá? Me abstenho. Apenas emoção...

O filme teve efeito devastador em muita gente. Não aceitei a classificação "romance", dada na época. E sim, pra mim, um drama muito sensível sobre o amor e a humanidade. Uma narrativa de até aonde as pessoas podem ir perdendo seus sonhos em meio às rotinas. Entre o congelamento e escurecimento das emoções no tumulto do trabalho e às obrigações diárias. Ou ainda, do outro lado, rejeitando a realidade em prol de mais felicidade, amor e paixão pela vida.

Depois de 24 anos revejo tal obra. Lembro das aspirações, ingenuidades e visão romântica que tinha da vida. Meus cílios umedeceram do momento inicial, com o solo de viola e bandolim - da trilha original. Até o fim, com a eloquência de Marlon Brando e Faye Dunaway em performance carinhosa, acompanhados pela voz de Bryan Adams - na "Ilha de Eros".

Curtindo os créditos finais. Pensando na vida. Escutando "Have You Ever Really Loved a Woman?" - CLÁSSICO! Usando todos os lenços disponíveis para secar meus olhos da beleza vista e do saudosismo escrachado. Penso: por onde andam os costumes do amor projetado e sincero? (não que eu seja um exemplo - nada de moralismo). Perdemos o platonismo dos "dezesseis anos de idade"? Talvez esteja ficando velho. No entanto, percebo a ingenuidade rareando cada vez mais cedo. Agora, "Dezesseis", é adulto - ainda há poesia pulsando nas veias de quem usa uniforme e espreme espinhas? 

Não consigo imaginar um Blockbuster nestes moldes hoje. Percebo que as grandes audiências e bilheterias são formadas por "conspirações, política e sangue". Não mais por amor. Não mais por mensagens positivistas e românticas. Não mais por esperança e ilusão. Até Stan Lee - quando projetou o Superman - sua expectativa era o promover o arauto de um futuro próspero e afetuosos. Hoje? Abandonou as grandes parábolas platônicas em prol de tiro, porrada e sangue, sem mensagem metafórica ao final - a criptonita dos tempos atuais venceu.


Torço para os mais novos terem acesso (e interesse) neste tipo de composição audiovisual. Torço em que o amor prospere e deixe de ser um "mozão" de festival, fluxo, rolê ou rede social. Espero de coração que, da mesma forma que me emociona um filme destes, possa emocionar a turma do "rabetão".

  

Ode a Teus

Teus seios cabem na ponta dos meus dedos, 
Não canso de estimular sua imaginação;
Com sussurros ao pé do ouvido retiro teus medos;
No toque, unhas e beijos consigo mais que uma ereção;

Teus seios afagam toda a mudança;
Tanto com pau, quanto com a tua boceta;
Grudados elevamos o suor a um novo nível de confiança.

Teus seios apontam ao além do tesão;
Firmados no duro e molhado desejo
Queremos o alicerce e o ponto do fato - da relação.

Teus seios balançam na dureza da distância 
Nem por isso desisto, ou desistimos do calor
Em um cantar gemido persistimos na tolerância;

No retorno divagamos a união metendo forte na esperança.

  

Maria e João

Seu João tem remendos em seu vinco para esconder a idade do jeans. Conta as moedas para passar a catraca. Dona Maria retira o guarda chuva de uma bolsa tratada com naftalina e sai da estação.

No circular-centro, em direção à praça, muitas Marias e “Joãos”. Todos sem escolha para ir, vir ou procurar emprego. Ou melhor, a alternativa nem é questionada sob a luz da dúvida em fazer o bem, cuidar dos seus ou acertar na educação.

Fé na honestidade? Tantos homens e mulheres sem nenhuma dúvida enfrentam a escassez sem atribuir ao remendo, ou à dificuldade em uma simples escolha. A via da normalidade - Aquela com muita "honestidade".

Em tempos de crise, alguns bradam: "todos são corruptos! A humanidade está perdida". Bem, para estes que conclamam a falta total de escrúpulos da sociedade, sugiro pegar um ônibus bem cedo. E ver milhares de "Marias e “Joãos" em pontos, terminais e estações, do mundo todo, com dois pensamentos: odiando ter que trabalhar e "que bom, garanti o pouso e comida das nossas crianças".

Honestidade? Imagino que esta palavra só deva ser usada em antagonismo aos que utilizam a prevaricação social em se promover. Ou até mesmo, se espantar com a decência inocente do bolso furado do Seu João.

  

Apenas Nu


Nu! Apenas nu;
Tento agradar a tu;
Nu! Apenas nu;
Trago-te para vida;
Nu! Apenas nu;
Enrolo sua partida.
Nu! Apenas nu;
Tento agradar a tu;
Nu! Apenas nu;
Desisto da aposta;
Nu! Apenas nu;
Rendo-me a sua resposta.
Nu! Apenas nu;
Deixo-te na despedida;
Nu! Apenas nu;
Consolo-me em desmedida
Nu! Apenas nu;
Retorno de cabeça erguida.
Nu! Apenas nu...

  

A questão de reger sua vida pela crença, espiritualidade e dogmas religiosos pode desencadear cruzadas, instituir guerras, estabelecer sectarismos e mover atitudes insanas em nome de uma verdade egoísta chamada de fé.  
  

Medalha

(Idoso de muleta - Claramente em tratamento de Câncer sobe comigo)

Ele - boa tarde!
Eu - boa!
Ele - como foi teu sete de setembro?
Eu - descansando. Em casa. E você?
Ele - fui no desfile
Eu - legal. E como foi?
Ele - (Olhando para sua região pélvica, especificamente para seu pênis) diz: - ganhei medalha.
Eu - Rindo, pergunto: - como?
Ele - "ele" ganhou uma medalha de ex-combatente e tempo de serviço. (Rindo muito)

Quisera eu ter ânimo para fazer piada de mim numa situação destas. Temos de aprender com ele. Depois descobri que o senhorzinho está em tratamento de CA de próstata - Metástase!


  

Andares da Idade

No elevador 1 (Um)

Certo dia. Voltando para a casa, dentro do elevador, puxo papo (e tento ser educado - sem estar paquerando) com uma moradora do meu condomínio:
Eu: Boa noite. Tudo bem? 
Moça: Tudo bem. Boa noite
Noto que ela está com um moletom escrito "Medicina".
Eu: Que legal, faz medicina! 
Moça: Sim. Eu faço, SENHOR.
Abaixo o olhar e fico calado. Lembrei na hora do "Tio Sukita". Embora não estivesse flertando com a futura médica pensei: meus cabelos brancos estão tirando minha juventude. "SENHOR??????!!!!!" PQP!

No elevador 2 (Dois)

Entra um homem de aproximadamente 60 anos. Pra manter minha cordialidade faço os devidos cumprimentos:
Eu: Boa tarde. Como vai?
Ele: Ótimo! 
Eu: Você tava na academia? 
Ele: Sim. Tenho de me manter jovem para as gatinhas.
Eu: Isso aí! Xô sedentarismo. Animação!
Ele: Gosta de Vinícios de Moraes?
Eu: Adoro! Um gênio de nossa música e literatura.
Ele: Tenho uma frase em que sempre penso quando estou fazendo spinning e admirando nossas vizinhas: "enquanto houver língua e dedo nenhuma mulher nos mete medo"
Eu: despeço-me do vizinho e desço no meu andar.

Conclusão: o "Tio Sukita" varia de acordo com a idade da mulher, sua mentalidade e autoestima. Nada tem a ver com a data de nascimento do homem.

Tô certo? 

Ps. Para quem não conheceu o emblemático "Tio Sukita" na cultura publicitária brasileira, clica aqui.

  

Fundo do Copo

Escondo em meu sorriso, nas falácias, a solidão,
Gasto tempo com outros, sem responder o que é meu,
Garanto a insensatez rindo de tudo que não me dão.
Julgo as pessoas tendo premissas de um velho coração,
Construo uma imagem anulando quem sou,
Vivo entre um gole e outro camuflado no tesão.
Discuto melancolia com trajes de ironia,
Até quando deixarei meus dia serem apenas um?
Até quando suportarei meu peso e minha ilusão?
Escondo em meu sorriso, nas falácias, a solidão,
Gasto tempo com outros, sem responder o que é meu,
Garanto a insensatez rindo de tudo que não me dão.
De gole em gole, em bar em bar,
No fundo do copo deixo de refletir,
Para ao fim adormecer sem saber com quem estou.

  

Ilusão


Um caminho. Um sentido. Uma decisão. Busco o dia-a-dia sem nenhuma ilusão.


  

Pão Tostado


Misturando o açúcar, quase numa relação de poder, vê sua vida turva na adição do leite. A cada gole no café, sente o tédio naquela xícara que esquenta. A medida que a colher escorrega, de um lado ao outro, ele vê as lembranças. 

Ao partir o pão, faca serrilhada - manteiga sem sal. Fogo para esquentar a casca. Numa tostadinha do que seria o farelo, ele fica mais rígido, queimado de nostalgia. 

Na boca solitária do fogão, tenta derreter o queijo junto com sua lágrimas. Numa mão segura a orelha da xícara. Na outra, o pão francês,  bronzeado e derretido. Se tivesse mais uma, uma terceira mão, estaria junto a seu coração - apertando o que deveria ser sua extraordinária solidão.


  

Pedra e Papel


Dura as coisas
Dura o amor
Dura a paciência
Dura o fervor

Vó durada
Vô durado
50 anos de duração

Dura as coisas
Dura o amor
Dura a paciência
Dura o fervor

Hoje nada dura
Nem de longe
Dura a paciência
Nem o amor.


  

Brilho sem devaneios


No café, em meio à flores. Ouvindo conversas sem sentido, dos vizinhos de mesa, foram lembrados os últimos quatro anos. No primeiro, o feitiço do poder. Uma sensação entorpecente. Interesses à vontade para conquistas e conversas. Sensível e marcante as incontáveis manifestações de glória. Confundia-se com querer bem e ser bem quisto. Terno, gravata e sala com bandeira. Presentes de Natal de quem nunca conversara. Desejos de um próspero ano sem nunca abraçar.

Os anos seguintes foi no mesmo ritmo. Sedução pelo poder. Convites sem reversas e muita vida, talvez torta, mas bem vividas. Sentia o mundo em suas mãos. Nada podia deter a galgada por devaneios e vontades da vitória.

Andou o mundo. Pertenceu a guerrilhas. Discutiu com governadores, ministros e presidentes. Ganhou prefeitos, viajou de helicóptero e aviões particulares. Sentiu o gosto de dirigir com vento aos cabelos olhando o mar. Cansou de despir seios enfeitiçados por aventuras e estórias inéditas - únicas. Pertenceu aos exclusivos. Experimentou a ausência de remorso e o egoísmo.

No ritmo que estava, incontáveis mulheres, dinheiro desprovido de culpa e sem reservas, a vida não oferecia mais grandes trunfos. O sucesso e o poder entediava. Não era mais suficiente. Massacrava o ego, a auto estima e sua individualidade. Questões eram ponderadas: gosta-se das aventuras ou dele sem camisa e sem rumo? Ou do Don Perignon posto a mesa?

Parece que um anjo escutou suas dúvidas. Imediatamente, antes de findar o quarto ano, o chão abriu em meio aos seus tênis comprados no exterior. Seus cabelos ao vento, olhando o mar, deram espaço a refúgio, culpa, dessabores e solidão.

Seus charutos e macarrons ficaram sem gosto. Sua força e amigos não o representavam mais.  Seu telefone não tocava. Os sorrisos e juras de amor deram espaço para o silêncio solene. Um novo extremo estava iniciando. Banhos de ervas. Meditação e muito desapego. Doía - Machucava a infâmia. O outro lado aparecia. Quem era ele? Quem realmente estava a seu lado?

Sua companhia era a lua, o canal de filmes da internet e sua família. Amigos? Existe isso? 
Os interesses escusos foram deixados as claras junto com as noites mau dormidas. Os convites cessaram a medida que os poucos entendiam que não existia vantagem num personagem derrotado.

Próximos quatro anos? Que venham sem novas conquistas, sem muito poder e sem muita glória. Que venha com mais sinceridade e otimismo. Com mais amor e sem culpa. Com mais os outros do que eu. Ou mais eu, do que os outros. Saúde, paz e muita honestidade.  Mais mãe, irmãs e família e muito esforço para valorizar a sensatez nua de um brilho sem devaneios.

  

Calos


Reclama-se de dores: cotovelos. Sacada macia para a espera. Ora o parapeito dá vista para um vulcão. Ora, para a imensidão do mar azul, no extremo oriente. E ainda, outrora, sente o coração palpitar com cimento, arranha-céus e garoa fina. 

As diversas imagens formaram os calos em seus braços. As várias paisagens vistas misturam as sensações: tranquilidade, medo, êxtase, tristeza e a alegria com as chegadas e partidas.

O calo de tão silencioso fez da sacada um grande observatório para o tempo perdido. Vivido, porém, ausente das angústias em encostar os cotovelos e ver a vida passar. Apenas mudando o cenário. Alvejando os encerramentos e culpas. Distribuindo memórias contidas num olhar bipartido e sem desculpas. 


  

⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Como tudo começou: