Aquela amiga teve um bebê lindo. Outra casou-se e divorciou na velocidade de um roteiro de filme cafona. O mais velho da casa busca correção para cataras em seus olhos. A mais nova, só pensa em Disney.
Os anos estão passando. O meu temor com o tempo fica cada vez mais evidente por estar comprando antidepressivos a mais. A vida passa pelo meio dos meus dedos como se estivesse tentando segurar areia. Aliás, a ampulheta deve ter sido uma tentativa de prender os pequenos grãos e o tempo nas próprias mãos.
Até seus trinta e poucos anos o julgamento é do “infinito e além”. As pessoas a seu redor não tem pressa. Você não tem pressa! Seu despertador tem motivos muito diferentes dos que se tem quando ultrapassados os quarenta com a sensação de nada feito.
Nas memórias mais longínquas, aquelas infantis, a cena é da janela coberta por uma cortina densa. Ladeada por pilhas de jornais e uma velha máquina de escrever IBM.
Alguns anos depois a cena já é outra: um helicóptero, um país diferente e uma nova língua. Talvez novos amores em meio a novos ares. Diferente das memórias infantis, as realizações profissionais foram a que ficaram impressas e pesam nas observações mais reclusas.
Quarenta e pouco! O que houve nesse hiato? O que houve com o sorriso ao lembrar daquela janela com cortina grossa e a máquina IBM? E o espanhol: ¿Ya no hablas? Talvez tudo tenha se perdido em meio a percepções falhadas e partidas agoniadas. Julgamentos errados e a fadiga com as futilidades. Afinal o tempo correu e a vitalidade corroeu. Perdeu-se a hora no que era tão importante. E o despertador tocou tarde demais para o que realmente é relevante.