Fabiana convida para irmos a um lugar que até então não tínhamos ido. No caminho, minha mão esquerda segurava forte a dela, e a direita brincava - imitando ondas com o vento na janela do carro em movimento. A música que tocava no rádio dava o ritmo de como seria aquele domingo de sol. Fonseca em seu brega universal cantava na estação local: “Déjame darte la mano // Para tenerte a mi lado”.
Chegando no estacionamento do lugar não dava para ter ideia do que esperaria olhando da rua. Entramos no restaurante e meu queixo caiu: estávamos em cima de uma espécie de falésia. As mesas ficavam dispostas em cima do platô rochoso. Olhando para um lado o mar colidia em ondas nas pedras. Para o outro, havia uma pequena praia com águas limpas e calmas- lugar maravilhoso.
Entre um beijinho e outro. Uma história, afagos e goles, Fabiana não imaginava que pouco tempo depois eu deixaria aquele país que tanto me marcou. Não podia dizer - meu coração estava muito apertado. Em devaneios acreditava que omitir seria o melhor para termos plenitude ante a iminente separação. Guardando só pra mim as dores iniciais de um prelúdio irremediável e triste.
O dia foi chegando ao fim e resolvemos descer as escadas do platô de rocha vulcânica para o lado da pequena praia. Todos já haviam ido embora. Não tinha mais ninguém - nem garçons. O pôr do sol “exclusivo” nos deixou sem palavras. E nossos olhares ficaram divididos entre a paixão e a ilusão do final da tarde do Oceano Pacífico. Numa epifania começamos a dançar uma música famosa da internet. A Kizomba nos acompanhou até os últimos raios de sol. “Lento” foi a canção latina que entrelaçou nossos pés molhados na água. E a saideira foi um abraço forte olhando as primeiras estrelas no firmamento.
Encerrado o dia, depois da Fabiana me deixar no hotel, a única coisa que fiz foi chorar. Chorei muito ao separar cada coisa em seu lugar da mala; cada lembrança e cada memória. Queria pegar um potinho e colocar como se fosse mágica tudo o que havia experimentado naquele tempo - levando junto comigo o impossível para onde eu fosse.
Fabiana recebeu a notícia que eu tinha de partir por uma mensagem de texto que enviei na segunda-feira, logo cedo - já estando no portão de embarque. Covardia? Não sei...Preferi que não houvesse despedidas - e que a mágica do dia anterior fosse o registro final do que vivemos intensamente durante aqueles meses. “¡Dale!” O pessoal da empresa aérea gritava para encerrar o embarque e selar o que por um pequeno espaço de tempo foi possível e totalmente inesperado.