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A década da mea-culpa

Às vezes acho que Oswaldo não superará o tantão que viveu naqueles anos. Foram as sensações mais extremas da sua vida. Tá certo que ele não estava bem; tá certo que ele não fez as escolhas mais corretas ou andou com as pessoas ideais. Entretanto, Oswaldo se pega chorando lembrando dela e escutando “Hey Daydreamer”. Ou até outra lágrima escorre quando toca “Florence” em alguma reunião de amigos, indagando o porquê Lívio escolheu partir mais cedo. 
O início da década foi um sonho. O surto foi tão intenso que a realidade transita entre sensações que o Oswaldo não sabe lidar ou reconhecer até hoje. Lendo as mensagens da rede social abandonada, ele percebe nos parágrafos mal escritos o quanto estava desalinhado com as consequencias. O quanto flutuou em nuvens cinzas e opacas. Não conseguiu julgar da maneira correta quase nada...
Passado-se anos daquele tempo vivido na loucura, Oswaldo ainda tem dificuldade em esquecer. Abandonar a recordação do texto sobre o lápis, ou aquela bike cool dada com carinho. Quisera ele ter usado um óculos mais ajustado para não ter sido tão míope num momento de muita extravagância. Tudo foi uma festa eterna sem sentido tocada numa vitrolinha hipster em meio a muitos sorrisos que jamais voltarão. 
Se acaso pudesse, ele desejaria com todas as forças o perdão e a aceitação do que não se pode mudar mais. Torceria para os erros se apagarem junto com uma noite bem-dormida. E por fim, conseguir um abraço de quem teria tanto a dizer, agradecer ou perdoar por coisas que não fazem o menor sentido. Apenas um “desculpe” já seria de grande valia para seguir adiante, olhando somente para frente e torcendo por uma nova chance nesse caminho estranho chamado vida. 


  

Home


Uma festa no James. Era quinzenal e sempre as quintas. A proposta era reviver as canções dos anos 1990. Quem diria que o coração do Félix ainda grita por aquele mate de pêssego tomado no balcão, enquanto equivocado, ignorava o seu arredor naquela noite. Não sabia o que estava fazendo. Ele podia ter dançado, aplaudido ou ter sido apenas gentil. Nada disso. Foi muito inseguro para tomar a atitude correta.
Com a mudança de endereço do bar, com a distância das pessoas do rolê e do envelhecimento, Félix não tem potência para resgates. Apenas torce que o esquecimento tome conta dos que foram negligenciados. Que seus erros sejam superados. E que ele não seja um mau exemplo usado tanto tempo depois daquela festa.
Hoje a balada está fechada pela pandemia. Corre o risco de quebrar. Junto com essa má notícia, Félix sente uma agonia nostálgica. Mesmo não sendo mais o bar de quando frequentava, fica impressionado com a hipótese do James fechar. Muito do que viveu foi naquele fumódromo grafitado, no bar do primeiro andar ou numa fila madrugada a dentro.
Félix não sacrifica todas as maravilhosas lembranças por uma quinta-feira em que não estava bem - e não foi legal. Houve muitas outras quintas que foram mágicas. E não só quintas: tiveram quartas, sextas, sábados…
Misturando as recordações, tanto as boas e ruins, Félix lamenta pelo saudoso rolê. Parece que em tempos malucos, mistura-se o sucesso e o fracasso. Junta-se a nostalgia com a esperança. E uma canção tocada na pista de dança naquela época nunca fez tanto sentido como hoje: “Oh, home, let me come home // Home is wherever I'm with you // Oh, home, let me come home”.


  

¡Dale!

Fabiana convida para irmos a um lugar que até então não tínhamos ido. No caminho, minha mão esquerda segurava forte a dela, e a direita brincava - imitando ondas com o vento na janela do carro em movimento. A música que tocava no rádio dava o ritmo de como seria aquele domingo de sol. Fonseca em seu brega universal cantava na estação local: “Déjame darte la mano // Para tenerte a mi lado”

Chegando no estacionamento do lugar não dava para ter ideia do que esperaria olhando da rua. Entramos no restaurante e meu queixo caiu: estávamos em cima de uma espécie de falésia. As mesas ficavam dispostas em cima do platô rochoso. Olhando para um lado o mar colidia em ondas nas pedras. Para o outro, havia uma pequena praia com águas limpas e calmas- lugar maravilhoso.

Entre um beijinho e outro. Uma história, afagos e goles, Fabiana não imaginava que pouco tempo depois eu deixaria aquele país que tanto me marcou. Não podia dizer - meu coração estava muito apertado. Em devaneios acreditava que omitir seria o melhor para termos plenitude ante a iminente separação. Guardando só pra mim as dores iniciais de um prelúdio irremediável e triste.

O dia foi chegando ao fim e resolvemos descer as escadas do platô de rocha vulcânica para o lado da pequena praia. Todos já haviam ido embora. Não tinha mais ninguém - nem garçons. O pôr do sol “exclusivo” nos deixou sem palavras. E nossos olhares ficaram divididos entre a paixão e a ilusão do final da tarde do Oceano Pacífico. Numa epifania começamos a dançar uma música famosa da internet. A Kizomba nos acompanhou até os últimos raios de sol. “Lento” foi a canção latina que entrelaçou nossos pés molhados na água. E a saideira foi um abraço forte olhando as primeiras estrelas no firmamento.

Encerrado o dia, depois da Fabiana me deixar no hotel, a única coisa que fiz foi chorar. Chorei muito ao separar cada coisa em seu lugar da mala; cada lembrança e cada memória. Queria pegar um potinho e colocar como se fosse mágica tudo o que havia experimentado naquele tempo - levando junto comigo o impossível para onde eu fosse.

Fabiana recebeu a notícia que eu tinha de partir por uma mensagem de texto que enviei na segunda-feira, logo cedo - já estando no portão de embarque. Covardia? Não sei...Preferi que não houvesse despedidas - e que a mágica do dia anterior fosse o registro final do que vivemos intensamente durante aqueles meses. “¡Dale!” O pessoal da empresa aérea gritava para encerrar o embarque e selar o que por um pequeno espaço de tempo foi possível e totalmente inesperado.

  

Girassol


Félix, depois de anos, interessa-se por uma moça. Não aquele desejo de apenas flertar e exercer poder. Mexer com sua autoestima e regozijar por prepotência. Desta vez está com medo de ceder! De ficar sem chão e colocar pra fora sua falta de sensibilidade imersa em fraudes. Nestes anos todos o único afeto experimentado foi o raso sem pisar no fundo. Foi o abraço sem sentido ou sentimento. Foi o prazer cronometrado – medido por um tchau previsto. Sem alento…Sem futuro…Sem memória…

A vida de Félix e suas escolhas umbilicais o impedem com que haja medição de profundidade. A eloquência está chamando pela voz da Ana. Gritando por afinidades descabidas. Havendo relutância em se aproximar mais, e talvez fazê-la sofrer. A moça não têm as máculas mundanas de toda a pobreza humana carregada por ele. Com desfaçatez e muita ingenuidade, Ana é imune às dores do mundo. Não enxerga as profundezas escuras que deixaram o olhar frio e opaco do moço.

As experiências do Félix – em desventuras – não devem atingir o brilho essencial da Ana. Parece que se houver mais aproximação, tudo o que é lindo nela desmoronará pela visão escura apresentada por ele. Trazendo a amargura e apagando com um sopro a lâmpada da ingenuidade – tão legítima e cálida – que puxa a vida da bela para o lado estrito da luz. As experiências e memórias duvidosas dele não podem ser ditas...

Nesta medida, Félix vai no limite – Ana não entende e não compreenderá. O “rapaz turvo” não aceitará o ônus de machucá-la. Tentará protegê-la. Não se perdoará em desconstruí-la no que tem de mais belo: a generosidade incondicional. Mesmo que para isso, Félix anule e negue seus sentimentos mais intensos e irrestritos - outrora esquecidos e nunca mais provocados ou vivido. 

Félix irá estipular barreiras, manter distância e estabelecer sua pobreza – aceitando as impossibilidades. Protegendo de maneira confusa e lacônica a beleza e luz ofertados pela utópica Ana. Quem sabe um dia Félix sinta-se redimido e renovado a ponto de regar – se ainda houver tempo – aqueles girassóis secos que estão até hoje em sua mesa de jantar.



  

Brinco Órfão

Fabiana perde-se em seus conflitos. Do anel jogado no passado, girando até o hoje definhado. Recuperando a beleza dos dedos - sem brilhos do compromisso. Rejuntando a liberdade naquela toalha, imprimindo a nova escolha da nudez plena e rasgada. 

Nas lágrimas secas continua escondida. Permanecendo o coração trêmulo na cadência da partida. 
Alforriada apenas com um brinco órfão, duma tarraxa polida - outrora reconhecida em suas perdas desmedidas. Tanto do amigo... quanto dos gemidos. 


O fecho do brinco sumido foi achado - e fica ali exposto. Lembrando o passado e seus sentidos. Impedindo atarraxar novamente o que um dia fora morto e esquecido.


  

O Sorriso Amarelo

Num daqueles bares charmosos por sua decadência e boemia - mambembe e de sarjeta. Fabiana aceita um encontro com um desconhecido. Conversaram por horas num aplicativo, e ali estavam para o real e (talvez) afetivo.

Oswaldo já aguardava ansioso sua chegada. Sentado num sofá na passagem da porta. Ela chega dez minutos atrasada. Encontram-se nus, sem nenhum smartphone para dar pudor e proteção. O sorriso de ambos era meio amarelo. Num misto de desconforto, timidez e controle - do que não queriam apresentar: suas fraquezas e dores da solidão.

Conversa pra lá. Conversa pra cá. Oswaldo, como a sociedade exige, tenta encantar, fazer rir e atrair. Fabiana, demonstra pouco interesse (mesmo querendo beija-lo imediatamente). Talvez o jogo hipócrita de dizer sim através do não ainda esteja em voga. Mesmo sendo combatido - com razão - exaustivamente por grupos minoritários.

Ela, como a grande parte das moças, não percebe que o Oswaldo se esforça a partir dos sinais de consentimento. Estava se permitindo e se expondo. Afinal, todos os pontos altos da noite teriam de vir de sua iniciativa. Do convite para tomarem um Gin Tônica, no real. Até o galanteio para tentar um beijo, ou algo a mais, dentro das possibilidade do ideal.

Fabiana nunca tinha percebido, até aquele momento, que normalmente as “vergonhas” das tentativas deveriam partir do seu eventual parceiro. Cabia a ela apenas o sim ou o não. Para as duas situações um constrangimento a ele. Afinal, o desgaste de se mostrar interessante na busca do sim - e o vexatório, caso fosse “não” - seria apenas do Oswaldo.

Continua-se a tentar! Na obrigatoriedade do baile da internet cabe a ele fazer os convites, lidar com os sinais (emanados pelas “Fulanas”) e quando aparentemente são positivos - tentar o avanço para o desconfortável, físico e viceral. E se não forem? Quem passa pela frustração e dores da rejeição? E toda aquela expectativa? Fabiana volta pra casa apenas triste, mesmo com autoestima abastecida pelo interessado, independente da incompatibilidade. Já Oswaldo, retorna derrotado por tanto tempo desperdiçado, tantas palavras, histórias jogadas fora e a vaidade abaixo de zero por não ter tido o consentimento esperado.


  

O Sabor Desconhecido

A roliça fora puxada com um lençol branco sem respigar o gelo. O Rock na sacada contrastava com o semblante de ternura. A conversa era desafinada ao riff da guitarra. O contorno da garrafa e os afagos lhes deixaram sem palavras. 

Por um dia, numa tarde, uma bela cicatriz desvelada. Na intimidade falsa o brinde final. No último gole restou um despretencioso abraço e um até logo banal.

Ninguém imaginava que anos se passariam. A rolha seria novamente estourada. Porém, desta vez, sem os disfarces e o contrabaixo distorcido. Somente com os olhares e fome pelo desconhecido.


  

Maçã

Todo o caminho que viria, seria dedilhado. Muito contado. Milimetrado. Alucinados, deixaríamos pra lá o que seria motivo de pecado. Totalmente perdidos na nudez e sem compostura para o inevitável.

Imagino teus seios. Você em cima de mim. Balançando entre o prazer e minha boca. Levando os mamilos às pequenas mordidas. E na tua face, vejo-te completamente louca.

O seio direito ficaria cada vez mais rígido, arrepiado. Quase uma maçã. Branquinho e bem durinho. Depois de um tempo, passado, tomaria um tom rosa, quase avermelhado. 

Numa ponta tocaria o bico - tenro e duro. O tesão te contrairia. O bojo, seria inutilizado. Arrancado prá fora. Admirando ainda mais o peito apalpado. Deixando-me ereto de tão lisongeado.

Com os sentidos aguçados, meteria em sua vulva o movimento dos sussurros. As sutilezas da pontinha, acabariam te deixando bem pequenininha. Nessa, não conseguiria. Não iria aguentar. Viva a safadinha!

Pernas apertadas, amarradas e gemidos quietinhos. Temos o suor, os sorrisos e mais vontade. Numa profunda ebulição, distinguindo a verdade, delirando dentro do que deveria ser os limites da razão.

Fagulhas. Eletricidade. Suspiros. Com o teu clitoris úmido não há mais o que fazer. Nem versos e apitos no celular, nem horário para terminar. Somente muita vontade e nada para atrapalhar.

Agora, esteja à vontade para tocar-se com profundidade, esquecendo do virtual. Comungando apenas com o que poderia ser real, com o agora. Experimentando um orgasmo lindo, efetivo e literal. 


Faça bom proveito de sua imaginação, contraia todos os músculos e depois relaxe. Lembrando que não são apenas linhas excitadas, escritas quase com o pau na mão. E sim, uma sensação real, forjada no desejo e no tesão.

  

Forro Costurado

Das belezas incontáveis. Dos lamentos mais profundos, sempre noto alguém especial. Não aquelas pessoas que apenas incendeiam os desejos mais íntimos. Ou os pensamentos mais carinhosos. E sim, aquelas que irão ter um caminho reluzente como um olho azul.

Sua vida me faz admirar - crer: A humanidade pode sim ser boa. Suas dificuldades e percalços, unindo aos teus sonhos, serão um carrilhão tocando no futuro. Chamando a atenção de muitos pelo sucesso certo e maduro.

O que vale são as pequenas lantejoulas costuradas uma a uma na túnica de gala. Ela irá reluzir junto com seus olhos azuis num declamar daqui a alguns anos em apenas uma fala.

Não deixe de costurar cada lantejoula - verá como será belo quando as tiver bordado em grande número. Não fará mais diferença o fôrro do pano opaco e tímido do início árduo. Com suas inspirações, aproveite! 

Enxergue um mundo melhor através da poesia, emoldurando a essência de seu olhar. Não deixe escapar nenhuma lantejoula solta, se perdendo entre uma linha, ou no ar. Certifique-se que os tablados, púlpitos e coxias tenham espaço para o teu inspirar.

Com o vestido de gala bordado, fechado em lantejoulas, muita vida terá para atuar. Talvez em frente de um juiz, ou de uma público particular. Nada irá te conter nesse futuro espetacular.

  

Conspiração

Unidos apenas por um fio. No seu tempo. Colados como fita crepe, apenas com o arrepio. No silêncio, sem nenhum pio. Sabemos que gritaremos mais, ainda mais, depois de um banho quente, um gole d'agua e um tempo arredio. Enrolados na toalha para espantar o frio. Um mundo inteiro irá conspirar. Em breve tudinho escrito aqui irá rolar. Não terá mais nada para atrapalhar. A não ser o toque verdadeiro em sentir e ultrapassar. Perdendo os limites para gemer sem parar.


  

Batata Frita

Rodo a bolacha de chope;
Brinco com seu girar entre a mesa e minha mão;
Nos lábios, junto da minha barba, enxugo meu bigode de espuma;
Perpasso a língua ajudando na tarefa;
Continuo a rodar a bolacha de chope entre os dedos;
Seco meu bigode por horas;
Minha companheira de mesa, junto ao chope: a batata frita;
Evito olhar profundamente para as outras pessoas;
Invisível: assim quero estar;
Abraçado ao lúpulo, minha visão turva e meu anonimato.

  

Mais Uma Vez



No ímpeto da adolescência, Oswaldo encantou-se com a beleza da Regina. Na época, os cabelos platinados, corpo de mulher e olhos bem delineados davam o tom da idealização. Paixão de criança!

Oswaldo, inexperiente, tentava driblar o platonismo e a projeção. Afinal, ele não conhecia Regina - apenas tinha uma atração física confusa. Coisa de gente nova. Não deu! Ele tentou cortejá-la ao som de “Crazy”, numa bela carruagem. Usou a mesma moeda de sedução: de fútil imaturo, do material efêmero - para material ingênuo.

Ao não acreditar em si, talvez ignorando sua essência, cometeu o primeiro erro: desconhecendo a personalidade da moça, apenas levando em conta sua beleza e seu modo, tentou desempenhar um papel que não lhe cabia. O máximo que conseguiu foi um beijo, uma saída e atropelos. Não era para ser assim...

O mundo deu voltas. Passou algum tempo. Um novo encontro. Mais uma vez Oswaldo não soube se expressar. Em meio a um noivado conturbado viu na Regina a idealização de anos passados. Buscou uma nova chance respaldada na crise que vivia. E mais uma vez, apenas na beleza estonteante da platinada. Nesse caso, a aliança foi colocada em cheque. Boiando dentro de uma taça de Heidsieck & Monopole.  Entre trocas de beijos, o batom rasgado em seus lábios foi para apenas um dia, mais uma vez. Novamente Oswaldo destruiu o que poderia ter sido e não foi. Ele, com todo o peso da traição nas costas, terminou com sua então noiva - valeu Regina em ter se encontrado com ele. Motivou a eminência da ruína de uma relação acabada.

Oswaldo, com sua idealização, se reaproximou da Regina depois de algumas primaveras (outra vez). Tomou um chope. Trocou mensagens com ela. No entanto, a moça havia crescido. Tinha outros pontos de vista. O intelecto transcendia a aparência. A beleza havia perdido o sentido. A admiração aumentou. O corpo da Regina foi deixado para trás. Apenas focando em seus olhos e em sua dissertação de novas expectativas de conhecimento. Puxa! Que mulher! Além de linda, tinha um preparo e sensibilidade fora do normal. Contudo, Oswaldo não teve, mais uma vez, tato em entender a moça. Com sua mania de controle e ansiedade deixou de lado o inesperado - afugentou mais uma vez a bela e (hoje) intelectual. Entretanto, desta vez sem borrões de batom.

Agora, nova chance! Sabe se lá porque os ciclos continuam. Uma reaproximação e uma afirmação: Oswaldo não conhece realmente a Regina. A iniciativa sempre foi platônica - não sendo real. Talvez, neste momento, a amizade e o sabor em ouvir possa levar adiante um laço. Ele nunca soube escutar. Sequer sabia dos mínimos da moça. Desconhecia seus gostos. Apenas presumia em sua prepotência e insegurança. Com mais maturidade o interesse está mais profundo. Deixando para trás os equívocos da adolescência, ansiedades e inseguranças. Resta saber se Regina estará disposta a exorcizar o passado, desconstruir a imagem do Oswaldo equivocado e começar do zero, vinte anos depois.
  

Calos


Reclama-se de dores: cotovelos. Sacada macia para a espera. Ora o parapeito dá vista para um vulcão. Ora, para a imensidão do mar azul, no extremo oriente. E ainda, outrora, sente o coração palpitar com cimento, arranha-céus e garoa fina. 

As diversas imagens formaram os calos em seus braços. As várias paisagens vistas misturam as sensações: tranquilidade, medo, êxtase, tristeza e a alegria com as chegadas e partidas.

O calo de tão silencioso fez da sacada um grande observatório para o tempo perdido. Vivido, porém, ausente das angústias em encostar os cotovelos e ver a vida passar. Apenas mudando o cenário. Alvejando os encerramentos e culpas. Distribuindo memórias contidas num olhar bipartido e sem desculpas. 


  

88 anos

Ali, naquela enfermaria, Reny via as cortinas azuis e os pés dos médicos (passando abaixo das divisórias). Pensava nas respostas que nunca tivera. Aquelas dúvidas que, mesmo aos 88 anos, permearam sua vida toda: minhas filhas são felizes? Meus netos, terão um futuro? E meu bisneto, o que será dele na adolescência? 

As angústias de deixar de querer viver, apenas desistir e interromper a velhice seria uma escolha? Reny ainda insiste no soro e nas injeções. Tratando a vida com seu fim de maneira natural e tentando ser bonita. Importando-se com cada visita. 
  

Arroz Queimado

Chegou em seu destino. Dor nas costas, pés inchados e coração decorado. Um Krug deixado pra trás. Outro comprado para um brinde de chegada. Um pijama quentinho pra aquecer. Uma rosa seca com histórias pra surpresa. Sorrisos!

Dores de passado latejando. Um novo começo. Expectativas em afeto, no toque. Dois dias passados. Um arroz queimado. Um brinde não feito. Um adeus.

Não existia um coração e um brinde? E a limpeza da casa? E o abraço? Talvez o arroz queimado tenha sido a marca da saída derradeira e do recomeço limpo. Sem vínculos. 

As escalas de cinza preencherão a partida serena, somente com a roupa do corpo e o amor encerrado. Desejando que as coisas fossem diferentes: sem lágrimas, rancores ou mágoas. Apenas um mal entendido entre duas pessoas que gostariam de ser felizes e não conseguiram.

  

Fui


Pego-me com a etiqueta da camisa exposta. Cantarolando uma música esquecida. Suspiro com dez mil quilômetros. O que fazer? Limito cada metro do trajeto. Busco uma fala que não seja rasgada - um lamento bem agudo.

Ontem, na boate decadente, jurava que o casamento teria sido o mais importante. Não foi. Naquele espaço delinquente senti a cortada - o pulso.

Acordando, depois do punho rasgado, com o cheiro do tempo e poucas dores, notei a importância da partida. Grudado na tela do computador, gostaria de voltar. Congelar o casamento, o pulso, e revirar a estupidez.

Assobiando uma música lembrada. Choro com os tais dez mil quilômetros. No ímpeto do contágio, trago o afeto em letras embaralhadas. E faz sentido? Somo as peças - junto moedas. Parto.

Hoje, no frio do seu olhar dou conta das incertezas. Dos malditos desafetos - dos planos. Outra vez busco uma fala que não seja rasgada e revivo a estupidez. Consumido. Exausto com o não feito.

Perdendo a esperança, depois de entender as incertezas. Dos malditos desafetos - dos planos (agora malfeitos). Busco alguma lógica para o suspiro. Dez mil quilômetros?

Tênis desamarrados usados para andar o mundo no canto do quarto. Nada me faz perder o sono. Não os sonhos de amanhã acordar ao contrário. Etiqueta da camisa exposta. Botão da calça perdido entre o suor, pupilas dilatadas e remorço.


  

Box De Banheiro


Não entendi direito o que passou. Imagino! Sempre corremos riscos de o tempo-espaço ficar pequeno e nos ultrapassar. Acho que as nossas expectativas foram tomadas pelo imediatismo e pela ignorância. Uns vem, outros vão!
Naquele Maio. Naquele box de banheiro decorado. Naquela DESvontade de sair da cama - MUITO ESPECIAL. Não pude querer te prender! Deve ser livre e amar! Experimentar e ousar! Nada disto temos culpa! Não quero explicações nem desculpas. Cultivemos em nossas memórias o que poderia ter sido mágico se não houvesse tanta distância. "Poderia" ficar rancoroso. Não é isto!  Sou grato pela batida mais forte no meu coração que você proporcionou. Tenho um carinho enorme por ti. Quero que tudo corra bem em sua vida. Que lute! Sofra! No fim, isto será relevante ao encostar na velha cadeira de balanço. Tenho certeza que serei lembrado quando a única coisa importante será as memórias de dias felizes.
  

Estúpida Falta De Controle

Mais uma vez Félix parte. Naquela de aeroporto, nunca consegue a plenitude. Quando chega: data para regressar. Quando parte: coração moído. Sua terra nunca está próxima. E os seus? Sente o gosto do que seria, como um arrepio da geada fria. Porém, a estupidez da falta de controle (quem a tem?) joga com os mapas, com os avisos e com os aviões. Milhas e quilômetros trancando o pulso de um dia se jogar no parado. Em casa! Na rotação comum. No filme e pijama bem acompanhado. Aventuras e missões invejadas. Sucesso e respeito! Contudo, sem o poder de sentir o tédio necessário para envelhecer e ficar em paz.
  

Escultura de Bolor


Abro a geladeira. Encontro meia garrafa de água. Uma maçã fora do ponto - e queijos que eram para ter tido um propósito. Todos vencidos - esculpidos em novas formas e cores pelo bolor de 15 dias. Com o desajeitado tempo perdido nada se pode fazer a não ser se desfazer do Brie. Jogar a água pelo ralo e dar aos pássaros a maçã levemente apodrecida.

  

Ponto Num Papel Em Branco


Nos últimos 3500 km a única coisa que pensava era no papel e na caneta. Não nos que deveriam ter sido usados. E sim, no que estava levando. Queria ter pelo menos um rabisco. Um asterisco ao menos - na volta. No entanto, a esperança é que tenha "inicio, meio e fim". Seja o fim com reticências. Ou um outro fim, diferente, abrindo novo capítulo.

A borracha nem será usada com sorriso, chorando, ou dando uma piscadinha. O silêncio deixará de existir? Não combina com oito horas de voo rascunhando o passado. Nem mascando a tampa da caneta refletindo no cabimento das coisas. Realmente, sê uma coisa não faz sentido é a vida do jeito que é sem você. Sinto falta do entrelaçar dos pés. Sinto falta do rubor que nem deve ser escrito, rascunhado ou apagado.

Ao som de Chairlift tomo nota da intensidade da campainha - "quantas vezes será tocada?" Ou se o telefonema estará na nota de rodapé. Ou pior, se os papeis serão rasgados sem serem aproveitados. Como nada mais faz sentido, um papel pode ser usado como guardanapo e até como jornal. Apenas registros. O que ainda está por vir será sem razão. Apenas emoção picotada por uma régua ou lixo levado ao latão.
  

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Como tudo começou: