No café, em meio à flores. Ouvindo conversas sem sentido, dos vizinhos de mesa, foram lembrados os últimos quatro anos. No primeiro, o feitiço do poder. Uma sensação entorpecente. Interesses à vontade para conquistas e conversas. Sensível e marcante as incontáveis manifestações de glória. Confundia-se com querer bem e ser bem quisto. Terno, gravata e sala com bandeira. Presentes de Natal de quem nunca conversara. Desejos de um próspero ano sem nunca abraçar.
Os anos seguintes foi no mesmo ritmo. Sedução pelo poder. Convites sem reversas e muita vida, talvez torta, mas bem vividas. Sentia o mundo em suas mãos. Nada podia deter a galgada por devaneios e vontades da vitória.
Andou o mundo. Pertenceu a guerrilhas. Discutiu com governadores, ministros e presidentes. Ganhou prefeitos, viajou de helicóptero e aviões particulares. Sentiu o gosto de dirigir com vento aos cabelos olhando o mar. Cansou de despir seios enfeitiçados por aventuras e estórias inéditas - únicas. Pertenceu aos exclusivos. Experimentou a ausência de remorso e o egoísmo.
No ritmo que estava, incontáveis mulheres, dinheiro desprovido de culpa e sem reservas, a vida não oferecia mais grandes trunfos. O sucesso e o poder entediava. Não era mais suficiente. Massacrava o ego, a auto estima e sua individualidade. Questões eram ponderadas: gosta-se das aventuras ou dele sem camisa e sem rumo? Ou do Don Perignon posto a mesa?
Parece que um anjo escutou suas dúvidas. Imediatamente, antes de findar o quarto ano, o chão abriu em meio aos seus tênis comprados no exterior. Seus cabelos ao vento, olhando o mar, deram espaço a refúgio, culpa, dessabores e solidão.
Seus charutos e macarrons ficaram sem gosto. Sua força e amigos não o representavam mais. Seu telefone não tocava. Os sorrisos e juras de amor deram espaço para o silêncio solene. Um novo extremo estava iniciando. Banhos de ervas. Meditação e muito desapego. Doía - Machucava a infâmia. O outro lado aparecia. Quem era ele? Quem realmente estava a seu lado?
Sua companhia era a lua, o canal de filmes da internet e sua família. Amigos? Existe isso?
Os interesses escusos foram deixados as claras junto com as noites mau dormidas. Os convites cessaram a medida que os poucos entendiam que não existia vantagem num personagem derrotado.
Próximos quatro anos? Que venham sem novas conquistas, sem muito poder e sem muita glória. Que venha com mais sinceridade e otimismo. Com mais amor e sem culpa. Com mais os outros do que eu. Ou mais eu, do que os outros. Saúde, paz e muita honestidade. Mais mãe, irmãs e família e muito esforço para valorizar a sensatez nua de um brilho sem devaneios.