Caixa de Pandora


Teu e-mail pode estar "deletando suas mensagens". Fui checar essa informação. Fiquei em dúvida. “Com a chegada de novas mensagens o e-mail poderia esvaziar automaticamente em ordem cronológica”, dizia um site de tecnologia. Sem ter certeza, depois de vários avisos de falta de espaço, deixei de procrastinar e fui resolver.

Ao entra na conta, a seleção do que limpar era prioritário. Comecei por mensagens mais antigas. Levei um susto. Fiquei horas visitando experiências registradas. Então resolvi assumir a melancolia e enfrentar as relíquias afetivas. Avaliar, chorar e espiar o passado. Não abri nenhuma caixa empoeirada ou folheei álbuns fotográficos desbotados. Muito menos tirei do fundo do guarda-roupas aquele diário em caderno universitário. Não precisou. Apenas continuei no meu e-mail e acessei as redes sociais. Encontrei áudios de conversas, mensagens com (e sem) sentido e muito saudosismo ilustrado em retratos.

Escutei as vozes gravadas em mensagens mesmo sabendo que hoje não são passíveis de respostas. (E olhe: ouvir pessoinhas perdidas no tempo, magoadas contigo, distantes, em outras línguas, sotaques e respirações, é um exercício e tanto). Vasculhei a “caixa de entrada” e encontrei trocas com muita dor. Certo de que algumas linhas foram rascunhadas em lágrimas (inclusive revivê-las marejou os meus olhos). Ah! Tinha aquela fotinha de “boa noite” ou um video-selfie de uma viagem a dois…Nossa quanto lenço de papel e coragem.

Encontrei trabalhos exitosos que hoje não fazem o menor sentido; aquisições de bens materiais que jamais teria comprado nesse momento da minha vida; colhi festejos e recompensas de chefes fugazes; achei despedidas amargas e flertes não correspondidos.

Há uma luta de empoderar o discurso do hoje. Várias linhas filosóficas, psicológicas e religiosas defendem o “viver O AGORA!” Contudo, essa cápsula do tempo virtual narrada aqui contradiz o tal preceito. Afinal, o que é o “aqui e agora” se temos ao alcance o “aqui e agora” de anos atras? O sentimento está ali. Ou melhor: hoje. Não sei. Confuso? Como tratar os fracassos e glórias marcadas como “lidas”? Como se livrar de situações/diálogos gravados em vozes detalhando momentos que deveriam ser solvidos? E o “mal resolvido”? Tão natural do humano, fica onde? Numa tela te perseguindo?

Nossas memórias seriam alteradas em outras épocas, num passado muito recente. Com os dias e anos nosso cérebro nos enganaria – pregaria peças. Diluiria as memórias. Não nos daria com exatidão (em mínimos detalhes) os acertos e erros. Temos lembranças alteradas e distorcidas para o nosso próprio bem. Entretanto, percebo que muitas vezes a exatidão do passado online faz enxergar o futuro com mais amargura, saudade e tristeza.

Meu palpite é que a memória virtual provoca seus (meus) arrependimentos, decepções, nostalgia e traumas. Não me venha dizer que não se autoflagela abrindo a caixa de pandora num momento de reflexão. Duvido! O hábito do ser-humano é cortejar o passado. Percorrer lápides e envernizar seus santuários – isso é universal.

Deletar os registros online é fácil. Desconfio que tendo alcance e desapego apagará parcialmente. Aposto que guardará algum trecho ou mensagem, boa ou ruim. Assim, eternizando para te assombrar amanhã ou depois. E se não for assim, uma lembrança inevitável pulará na sua timeline sugerida por algum algoritmo sem coração ou história. Enfim, o passado deixou de estar atrás. Ele está no hoje e estará no amanhã. Tendo disposição ou não para enfrenta-lo.



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Como tudo começou: