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Passagem

Tem o passado do que não foi. Há também o que só será no futuro. E aquele que não muda. Ah passado…. A memória distorce o que poderia ter sido. Temendo um dia ser ultrapassado e esquecido. Nos passos tímidos a passagem pode ser só o resto. Insistindo em passos incertos e modestos. Passados e repassados na incompetência da culpa. Resistindo as inconsequências da cura. Nada passará redimindo. A espera é esquecer o que foi e, só assim, passar o passado a limpo. 



  

Caixa de Pandora


Teu e-mail pode estar "deletando suas mensagens". Fui checar essa informação. Fiquei em dúvida. “Com a chegada de novas mensagens o e-mail poderia esvaziar automaticamente em ordem cronológica”, dizia um site de tecnologia. Sem ter certeza, depois de vários avisos de falta de espaço, deixei de procrastinar e fui resolver.

Ao entra na conta, a seleção do que limpar era prioritário. Comecei por mensagens mais antigas. Levei um susto. Fiquei horas visitando experiências registradas. Então resolvi assumir a melancolia e enfrentar as relíquias afetivas. Avaliar, chorar e espiar o passado. Não abri nenhuma caixa empoeirada ou folheei álbuns fotográficos desbotados. Muito menos tirei do fundo do guarda-roupas aquele diário em caderno universitário. Não precisou. Apenas continuei no meu e-mail e acessei as redes sociais. Encontrei áudios de conversas, mensagens com (e sem) sentido e muito saudosismo ilustrado em retratos.

Escutei as vozes gravadas em mensagens mesmo sabendo que hoje não são passíveis de respostas. (E olhe: ouvir pessoinhas perdidas no tempo, magoadas contigo, distantes, em outras línguas, sotaques e respirações, é um exercício e tanto). Vasculhei a “caixa de entrada” e encontrei trocas com muita dor. Certo de que algumas linhas foram rascunhadas em lágrimas (inclusive revivê-las marejou os meus olhos). Ah! Tinha aquela fotinha de “boa noite” ou um video-selfie de uma viagem a dois…Nossa quanto lenço de papel e coragem.

Encontrei trabalhos exitosos que hoje não fazem o menor sentido; aquisições de bens materiais que jamais teria comprado nesse momento da minha vida; colhi festejos e recompensas de chefes fugazes; achei despedidas amargas e flertes não correspondidos.

Há uma luta de empoderar o discurso do hoje. Várias linhas filosóficas, psicológicas e religiosas defendem o “viver O AGORA!” Contudo, essa cápsula do tempo virtual narrada aqui contradiz o tal preceito. Afinal, o que é o “aqui e agora” se temos ao alcance o “aqui e agora” de anos atras? O sentimento está ali. Ou melhor: hoje. Não sei. Confuso? Como tratar os fracassos e glórias marcadas como “lidas”? Como se livrar de situações/diálogos gravados em vozes detalhando momentos que deveriam ser solvidos? E o “mal resolvido”? Tão natural do humano, fica onde? Numa tela te perseguindo?

Nossas memórias seriam alteradas em outras épocas, num passado muito recente. Com os dias e anos nosso cérebro nos enganaria – pregaria peças. Diluiria as memórias. Não nos daria com exatidão (em mínimos detalhes) os acertos e erros. Temos lembranças alteradas e distorcidas para o nosso próprio bem. Entretanto, percebo que muitas vezes a exatidão do passado online faz enxergar o futuro com mais amargura, saudade e tristeza.

Meu palpite é que a memória virtual provoca seus (meus) arrependimentos, decepções, nostalgia e traumas. Não me venha dizer que não se autoflagela abrindo a caixa de pandora num momento de reflexão. Duvido! O hábito do ser-humano é cortejar o passado. Percorrer lápides e envernizar seus santuários – isso é universal.

Deletar os registros online é fácil. Desconfio que tendo alcance e desapego apagará parcialmente. Aposto que guardará algum trecho ou mensagem, boa ou ruim. Assim, eternizando para te assombrar amanhã ou depois. E se não for assim, uma lembrança inevitável pulará na sua timeline sugerida por algum algoritmo sem coração ou história. Enfim, o passado deixou de estar atrás. Ele está no hoje e estará no amanhã. Tendo disposição ou não para enfrenta-lo.



  

Maria e João

Seu João tem remendos em seu vinco para esconder a idade do jeans. Conta as moedas para passar a catraca. Dona Maria retira o guarda chuva de uma bolsa tratada com naftalina e sai da estação.

No circular-centro, em direção à praça, muitas Marias e “Joãos”. Todos sem escolha para ir, vir ou procurar emprego. Ou melhor, a alternativa nem é questionada sob a luz da dúvida em fazer o bem, cuidar dos seus ou acertar na educação.

Fé na honestidade? Tantos homens e mulheres sem nenhuma dúvida enfrentam a escassez sem atribuir ao remendo, ou à dificuldade em uma simples escolha. A via da normalidade - Aquela com muita "honestidade".

Em tempos de crise, alguns bradam: "todos são corruptos! A humanidade está perdida". Bem, para estes que conclamam a falta total de escrúpulos da sociedade, sugiro pegar um ônibus bem cedo. E ver milhares de "Marias e “Joãos" em pontos, terminais e estações, do mundo todo, com dois pensamentos: odiando ter que trabalhar e "que bom, garanti o pouso e comida das nossas crianças".

Honestidade? Imagino que esta palavra só deva ser usada em antagonismo aos que utilizam a prevaricação social em se promover. Ou até mesmo, se espantar com a decência inocente do bolso furado do Seu João.

  

En Suiza: Sólo de Nombre

Desde 2013 el español rompe mi corazón. Un mensaje enviado sin el derecho de réplica infla hasta hoy lo imposible. En Suiza, sólo de nombre,  mi alma fue pintado de azul y blanco. Dejando los recuerdos con el dolor. Impendindo para el futuro una realidad cubierta de seis mil quilómetros.










  

Ilusão


Um caminho. Um sentido. Uma decisão. Busco o dia-a-dia sem nenhuma ilusão.


  

Pão Tostado


Misturando o açúcar, quase numa relação de poder, vê sua vida turva na adição do leite. A cada gole no café, sente o tédio naquela xícara que esquenta. A medida que a colher escorrega, de um lado ao outro, ele vê as lembranças. 

Ao partir o pão, faca serrilhada - manteiga sem sal. Fogo para esquentar a casca. Numa tostadinha do que seria o farelo, ele fica mais rígido, queimado de nostalgia. 

Na boca solitária do fogão, tenta derreter o queijo junto com sua lágrimas. Numa mão segura a orelha da xícara. Na outra, o pão francês,  bronzeado e derretido. Se tivesse mais uma, uma terceira mão, estaria junto a seu coração - apertando o que deveria ser sua extraordinária solidão.


  

Suor

Na sala, o sutiã fadigado. Seu suor, cola em seu peito. Com mãos, o corpo e o coração. Gemidos e sussurros cantaram com Élton John. 

No quarto, os lençóis estão curtos para o que aconteceu. Os travesseiros não estão aonde deveriam estar. Não serviram para aquecer. Apenas para atrapalhar. 

O desejo prevaleceu. Toca o despertar. O velho relógio gera o silêncio. Depois da noite, todo amarrotado de tesão, hora de partir com a realidade e os saltos na mão.


  

Arrivederci Presto!


Mais uma vez o aeroporto. Mais uma vez ele para o que deveria (ou não) ser dito. Feito ou acontecido. Maria se despede do que não sabe. Parte para o terminal quatro sem saber acalmar seu coração. 
Félix, não teve força para segurá-la pelo braço. Pegou pelo coração. Porém, machucado, deixa de pulsar como "Nessun Dorma". E a partida é iminente. Fazendo a despedida uma Ópera de Puccini, bem milanesa. Não daquelas de prantos curtos. E sim, das mais doídas e copiosas - dignas de um atlântico inteiro de soluços e lágrimas serenas.


  

Xícara De Café Lavado



Eu ainda não sei o quanto as taças quebradas, os treze andares e o mundo todo ao redor podem diminuir meu pesar pela renúncia da rotina.


Toda vez que olho para minhas malas, ali prontas no canto da porta, discuto sobre passado, presente e futuro. A idade chega. Os cabelos brancos crescem. E tenho cada vez mais distância da cama desarrumada, do café frio esquecido no criado mudo e do maldito apresentador dominical.

Quando faço um balanço do que esqueci, percebo que existem mais situações lembradas com dores e pesar do que memórias entusiasmadas. Sabe remorsos? Hipocrisia negar os arrependimentos do feito ou desfeito. Besteira! Existem sim lamentos. Ou ignora?

Na filosofia de botequim, palavras gastas em jornais de quinta e estações de rádio mal sintonizadas, continuo a busca pelo cansado e normal. Pelo mediano e entediado. Talvez um dia: malas guardadas, xícara de café lavada e um banho quentinho para marcar a hora de chegada no trabalho de oito horas - de segunda a sexta - numa rotina tranquila. Aquela incapaz de mover novas aventuras e desgostos. Apenas contando as horas para a chegada de um sábado indisposto.

  

Mi Sustenido


Dedilhados correm no piano. Um jazz. Um bolero. Pode ser maxixe. Talvez um foxtrot. Não! Um Mi sustenido e um acorde em Sol. A voz está cansada em cantar num palco feito pra solos. Aplauso? Basta um. Aquele de todos os dias. Da Fabiana orgulhosa em ser a única torcendo para um dia ser apenas mais uma no meio de tantos outros bis.


  

Rachar o Queixo

O semáforo lampeja o verde. Num minuto atravesso a rua. No outro, apresso o passo cansado de caminhar. De um lado pro outro deixo de sentir minhas mãos. Frio de rachar o queixo. Continuo a andar.

Passos largos. Uma ligação? Podia ser. Não, não era. Um vendedor. Nada daquela chamada. Gastando sola das botinas continuo a procurar. Um dia acho. Acredito no percurso, na luta e na sensatez em um dia botar meus pés pra cima, relaxar e ter lucidez.
  

Usado

Sou usado. Velho e cansado. Os chinelos não cabem mais. As costas doem. Os amores não vingam. Dinheiro se vai. Nostalgia e culpa norteiam o cinza de Curitiba. Com a chegada, rosas murchas e cafés frios prometem um inverno solitário e infame. Um gelo de esquecimento e memórias inválidas. 

Nada do imaginado cabe mais no velho moletom. Ninguém mais ouve suas palavras, nem seus sussurros. Agora a sorte anunciada é o tic-tac do relógio. Dás horas que passam em silêncio. Sem remédio para a falta de pulsação. Restam uma lágrima seca, um sonho desfeito e muita vontade de recomeçar.
  

Quero Ter Medo Da Saudade!

Quando ligo para você, envio mensagem ou escrevo um e mail, corro o risco da iniciativa. A partida para o novo pode ser negada. Ou até desdenhada. O compromisso pode dar segurança. Como também, indiferença. Segurança para se sentir gostado na negociação diária. Fazendo com que a iniciativa torne fraca a relação. Já a ignorância parte para uma ausência de mudança nas mensagens ou textos. Indiferente pela distância e possibilidades - o medo é forte. Temo por indiferença ou iniciativa. Porém, enfrento. Quero brigar contra isso. Quero ter medo de perder. Quero ter medo da distância. Quero ter medo de ser feliz. Quero ter medo da saudade! 

  

Piano


Queria ter um lugar para deixar meu piano. Talvez uma sala grande. Talvez uma casa com araucárias na porta. Queria tocar o "cauda longa" ouvindo um sabiá. Quem sabe as malas caibam junto do instrumento. Por hora, a mochila e a idéia de fixar os acordes sejam apenas um assobio. E os pensamentos que me completam quando eu acordo no meio do mundo sejam apenas pesadelos.

  

MSG


Mensagem pra lá. Mensagem pra cá. Não se conhecem. Uma foto. Um talvez? Será promissor? O olfato confirmará o acaso. Um grande beijo selará a vontade de mover a distância pra lá.


  

Lupa


Busco um caminho, sentido ou uma decisão. Enquanto isto, vivo o dia-a-dia sem nenhuma ilusão.

  

Super

Na sacada percorro o olhar sobre o dilema de ir e vir. Nos prédios - No horizonte, nota-se a urgência de um mito. Como a dualidade da vida de super-herói é desacreditada? Quando se está com a capa, ou com a arma fantástica: humildade. Quando se veste tênis e um jeans surrado: arrogância. Na cidade dos reflexos somente um herói pode vencer: o que responde a fragilidade da vida com a dureza de um sorriso. Arremessando-se de telhado em telhado na busca de equilibro e um verdadeiro amor. Quebrando (ou não) a sustentabilidade da sua verdadeira dor.
  

Carvão e Gelo

Queria ter escrito uma carta. Talvez rabiscado os tais papeis dados. Porém, de nada adianta. Quando o carvão é transformado em lápis - a celulose em blocos de papel - não servem mais para aquecer sua lareira gélida e vazia. Mesmo transformando o papel e o carvão para mudar a rotina fria de Curitiba.
  

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Como tudo começou: