O Sorriso Amarelo

Num daqueles bares charmosos por sua decadência e boemia - mambembe e de sarjeta. Fabiana aceita um encontro com um desconhecido. Conversaram por horas num aplicativo, e ali estavam para o real e (talvez) afetivo.

Oswaldo já aguardava ansioso sua chegada. Sentado num sofá na passagem da porta. Ela chega dez minutos atrasada. Encontram-se nus, sem nenhum smartphone para dar pudor e proteção. O sorriso de ambos era meio amarelo. Num misto de desconforto, timidez e controle - do que não queriam apresentar: suas fraquezas e dores da solidão.

Conversa pra lá. Conversa pra cá. Oswaldo, como a sociedade exige, tenta encantar, fazer rir e atrair. Fabiana, demonstra pouco interesse (mesmo querendo beija-lo imediatamente). Talvez o jogo hipócrita de dizer sim através do não ainda esteja em voga. Mesmo sendo combatido - com razão - exaustivamente por grupos minoritários.

Ela, como a grande parte das moças, não percebe que o Oswaldo se esforça a partir dos sinais de consentimento. Estava se permitindo e se expondo. Afinal, todos os pontos altos da noite teriam de vir de sua iniciativa. Do convite para tomarem um Gin Tônica, no real. Até o galanteio para tentar um beijo, ou algo a mais, dentro das possibilidade do ideal.

Fabiana nunca tinha percebido, até aquele momento, que normalmente as “vergonhas” das tentativas deveriam partir do seu eventual parceiro. Cabia a ela apenas o sim ou o não. Para as duas situações um constrangimento a ele. Afinal, o desgaste de se mostrar interessante na busca do sim - e o vexatório, caso fosse “não” - seria apenas do Oswaldo.

Continua-se a tentar! Na obrigatoriedade do baile da internet cabe a ele fazer os convites, lidar com os sinais (emanados pelas “Fulanas”) e quando aparentemente são positivos - tentar o avanço para o desconfortável, físico e viceral. E se não forem? Quem passa pela frustração e dores da rejeição? E toda aquela expectativa? Fabiana volta pra casa apenas triste, mesmo com autoestima abastecida pelo interessado, independente da incompatibilidade. Já Oswaldo, retorna derrotado por tanto tempo desperdiçado, tantas palavras, histórias jogadas fora e a vaidade abaixo de zero por não ter tido o consentimento esperado.


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Como tudo começou: