Nas Nuvens

Fila 4, assento C. Malas e bagagens de mão em seus compartimentos. Portas no automático. Tripulação: "decolagem autorizada." Procedimentos de segurança exibidos.

Lá na frente, entre a cortina e GPS, nota-se um "Sorriso Lindo". Tá certo, o universo das comissárias é um mito. Desde os anos 50 elas são cobiçadas por seu glamour e interesses equivocados - nunca seria permitido invadir o espaço aéreo do corredor luminoso (com luzes indicativas - no caso de emergência) para um eventual aperto de mão, ou apenas um "olá - prazer eu sou o fulano". No máximo é permitido responder com simpatia para o serviço de bordo. Neste caso, do Sorriso Lindo, teria de quebrar esta regra! Não poderia deixar passar. Olhares e gestos comovem mais do que coques e penteados, passos de modelos, ou maquiagens bem desenhadas.

Oswaldo pensa: o que fazer com aquela simpatia que surpreendeu? Papel? Rasgar a revista numa página em tons mais claros para mandar um recado? "Caneta?  Alguém tem?" Guardanapo com "olá, quero saber teu nome"? Clichê!

A alegria demonstrada naquela parte desconfortável, cadeiras duras e dezenas de botões misturados com comidinhas, não poderia passar em branco. Prontamente usou a tecnologia. Enquanto o avião decola, entre a força G e o trem de pouso fechando, ele comete a primeira indisciplina: abaixar a bandeja de refeição e começa a escrever em seu tablet. Tá certo - não tinha condições de fazer nada genial. Apenas queria dar um gesto. De alguma forma retribuir o "rir sem transmitir som", que não era pra ELE, mas, foi bastante cativante.

Comete-se a segunda indisciplina: mudar de assento. Oswaldo foi para os fundos da aeronave - sempre na tentativa de arrumar três bancos livres para poder tirar uma soneca. Instala-se. Fila 20, assentos ABC. Texto pronto e coração na boca. Agora vencer a timidez e esperar o melhor momento. Ele fica na cadeira do corredor na expectativa da terceira indisciplina: mostrar o texto digital para a comissária amável. "Psiu?!" - "Pode vir aqui?!"  Claro que viria…. Foi! Começou verdadeiramente o voo! No primeiro parágrafo escrito no tablet a expressão era de espanto. No segundo parágrafo surgiu novamente o Sorriso Lindo. Ele disse: "Seja discreta". Foi chamado a atenção pela luminosidade e sinceridade de seus dentes a mostra (quase boquiaberta). "Falarei com minha chefe", diz a moça de azul. Bem, meio que assim, como se pairasse uma frustração, ele pensa em desistir. De toda forma foi retribuído o sorriso (que não era apropriado pra ele) de quando estava na fila 4. Acomoda-se entre os  encostos de braço, começa a se ajeitar para dormir por pouco mais de duas horas.

De repente, como uma cutucada adolescente, alguém mexe em seu pé com a mão esquerda, e com a direita coloca um papel no bolsão (onde estava o iPad e uma revista). Oswaldo desata o cinto e levanta-se. Rapidamente abre o bilhete. Para aumentar a confusão ele recebe uma "carta institucional" escrita por cima de uma nota de alimentação do voo, agradecendo-o por seus elogios a tripulação. Ué!? O texto era individual. Foi pensado para o Sorriso Lindo e não para a equipe. No entanto, passando novamente o olhar pelos escritos trêmulos pela turbulência. Na devolutiva da mensagem quase sem tinta, percebe-se que as outras moças do voo sempre passam por ele sorrindo - sem comparação com o Sorriso Lindo.  Porém, ali demonstram simpatia pela trama. Tenta-se entender a mensagem - checa o crachá do riso frouxo. Está na lista! Objetivo alcançado! Com o agradecimento escrito, ele imagina que estaria codificado uma possibilidade. E estava! Nunca tinha visto uma correspondência oficial com tamanha simplicidade e autenticidade.

Pouso autorizado! Contato estabelecido via nome completo! Saídas pelas portas da frente e de trás.  Muitas mensagens trocadas e aguçado o conhecer. Promovido uma relação mínima. São Paulo, Palmas, Brasília, Céu... Não importa, ainda voltará a ver aquele Sorriso Lindo. Só que desta vez em solo. Despida de roupa azul ou textos formais. Apenas de jeans e cara lavada. Um café talvez até o próximo voo. Tripulação: portas no manual. Trabalho encerrado, e quem sabe, mais uma decolagem rumo a alguma loucura?



Será verdade? Veja aqui. (hahahahaha)

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Como tudo começou: